A escola de samba Portela anunciou, nesta sexta-feira (13), que terá como tema do seu enredo de 2026 o Príncipe Custódio Joaquim de Almeida, figura histórica e espiritual originária do Benin, na África, que viveu em Porto Alegre desde o início do século XX até sua morte, em 1935, aos 104 anos.
Com o tema, a escola levará à Sapucaí uma homenagem à religiosidade, à cultura e à resistência negra no Rio Grande do Sul. O tema é “O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”.
Segundo a Portela, a escolha do tema também visa valorizar a identidade negra do povo gaúcho, frequentemente invisibilizada na história oficial do estado. O desfile vai ressaltar elementos como a música, os rituais do Batuque, a cultura popular e a força ancestral deixada como herança por Custódio.
Quem foi Príncipe Custódio
Príncipe Custódio é considerado um dos pilares da cultura afro-gaúcha e do fortalecimento da negritude no Sul do Brasil, tendo inspirado movimentos de resistência e ajudado a estruturar o Batuque, principal religião de matriz africana do Sul do país.
Em um documentário produzido em 2021 pelo governo do RS, Custódio é descrito como “uma importante personalidade de Porto Alegre no século XX” que frequentava ambientes da elite da cidade e mantinha relações com importantes políticos da época, como Julio de Castilhos e Borges de Medeiros.
As origens de Custódio são cercadas de dúvidas. Em seu estudo “O ‘Príncipe’ Custódio e a ‘Religião’ Afro-Gaúcha”, de 1999, a antropóloga Maria Helena Nunes defende que ele era descendente direto do trono do Reino de Benin e um dos líderes da resistência dos nativos do país africano à colonização do Império Britânico.
Graças a seu status, teria estudado na França, na Alemanha e no próprio Reino Unido. Também por sua liderança no país, teria sido exilado pelos britânicos durante o processo de colonização – o que fez com que chegasse ao Brasil.
Custódio é personagem do romance histórico “Maya”, prestes a ser lançado pela escritora e socióloga Hilda Simões Lopes, que estudou a vida do príncipe africano para escrever o livro. “Em Porto Alegre, ele se tornou muito amigo dos grandes políticos da época. Fazia curas, visitava e era visitado”, diz.
“Consta que era muito ligado aos orixás, por vezes dizia para algum familiar ‘abre a porta que alguém muito doente está chegando’, e a pessoa abria a porta e realmente vinha alguém na esquina”, finaliza a escritota.
O samba enredo vai contar a trajetória de Príncipe Custódio Joaquim de Almeida — Foto: Reprodução/TV Globo