{"id":37192,"date":"2025-10-11T08:25:29","date_gmt":"2025-10-11T11:25:29","guid":{"rendered":"https:\/\/radioultimapalavra.amelhor.net\/site\/medo-pesadelos-e-aumento-de-agressividade-criancas-e-escolas-do-rs-ainda-lidam-com-o-trauma-das-enchentes\/"},"modified":"2025-10-11T08:25:29","modified_gmt":"2025-10-11T11:25:29","slug":"medo-pesadelos-e-aumento-de-agressividade-criancas-e-escolas-do-rs-ainda-lidam-com-o-trauma-das-enchentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radioultimapalavra.amelhor.net\/site\/medo-pesadelos-e-aumento-de-agressividade-criancas-e-escolas-do-rs-ainda-lidam-com-o-trauma-das-enchentes\/","title":{"rendered":"Medo, pesadelos e aumento de agressividade: crian\u00e7as e escolas do RS ainda lidam com o trauma das enchentes"},"content":{"rendered":"<div>\n<div id=\"chunk-d249b\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Rosimere Rocha da Silva, de 41 anos, conta que a filha Alana e seu outro filho, Jaisson, de 8 anos, ainda t\u00eam p\u00e2nico quando come\u00e7a a chover. No caso de Jaisson, a trag\u00e9dia clim\u00e1tica teve efeitos ainda mais graves e desencadeou uma crise que tem sido investigada. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-d3bd5\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> A fam\u00edlia teve de ser resgatada quando a \u00e1gua estava quase no telhado e precisou ficar dias numa barraca na beira da BR 116. Nesse tempo, o menino ficou agressivo, mordia outras pessoas e comia a pr\u00f3pria roupa. Segundo a m\u00e3e, h\u00e1 suspeita de autismo e esquizofrenia. \u201cQuando fala de enchente perto dele, ele fica pior. Porque ele j\u00e1 sabe que vai ficar sem casa\u201d, diz Rosimere, que j\u00e1 teve que se mudar muitas vezes por causa das cheias \u2013 n\u00e3o s\u00f3 a hist\u00f3rica, de maio de 24, como outras que vieram depois. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"backstage-photo\" id=\"chunk-f5ce0\">\n<p> Rosimere Rocha da Silva na frente da casa que ela perdeu depois das enchentes de maio de 2024 na Ilha das Flores, em Porto Alegre \u2014 Foto: Anna Ortega\/g1 <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-e7emf\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Para as crian\u00e7as, a perda da casa, dos brinquedos e tamb\u00e9m da rotina escolar tiveram impactos profundos. \u201cA nossa casa ficou meses debaixo d\u2019\u00e1gua, os brinquedos da Alana apodreceram. At\u00e9 hoje ela vai at\u00e9 l\u00e1 e pede pra eu limpar e resgatar as bonecas, mas n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es. T\u00e1 tudo podre\u201d, conta Rosimere. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"backstage-photo\" id=\"chunk-tl75\">\n<p> Caixas com brinquedos apodrecidos ainda est\u00e3o na frente da casa de Rosimere; sua filha Alana ainda pede que a m\u00e3e &#8216;resgate&#8217; as bonecas que apodreceram \u2014 Foto: Anna Ortega\/g1 <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-2hhjq\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> \ud83d\udd0e<span>As cheias de maio de 2024 foram o maior desastre natural na hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul<\/span>. Foram mais de 2 milh\u00f5es de pessoas afetadas em 478 munic\u00edpios, com mais de 180 mortes. As \u00e1guas baixaram, mas deixaram marcas profundas. No final de agosto, o <strong>g1<\/strong> visitou escolas p\u00fablicas em Porto Alegre e Eldorado do Sul, na regi\u00e3o metropolitana, para entender como as enchentes afetaram as crian\u00e7as pequenas e as escolas. Nesta reportagem, voc\u00ea vai ler: <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"raw\" data-block-weight=\"3\" id=\"chunk-tbnj\">\n<p><h2>Trauma das \u00e1guas <\/h2>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-8h6v9\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> O <strong>g1 <\/strong>conversou com mais de 15 adultos e crian\u00e7as para a produ\u00e7\u00e3o dessa reportagem. Entre os adultos, praticamente todos ainda se emocionam e choram ao contar o que viveram. <span>\u201cO trauma \u00e9 coletivo\u201d<\/span>, conta Sabrina Garcez, diretora da Emei Miguel Granato Velasquez, de Porto Alegre. <span>\u201cSe a gente est\u00e1 abalado de lembrar, imagina as crian\u00e7as pequenas.\u201d <\/span> <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-3nu1m\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Julia Andara Pires, de 6 anos, tem uma imagem forte marcada na mem\u00f3ria: \u201cA enchente veio do bueiro\u201d. Moradora de um condom\u00ednio do Sarandi, em Porto Alegre, a fam\u00edlia de Julia conseguiu sair dali logo que a \u00e1gua come\u00e7ou a subir pelo esgoto. O apartamento, no terceiro andar, n\u00e3o encheu de \u00e1gua, mas tudo estragou e mofou em raz\u00e3o da \u00e1gua que ficou parada por mais de um m\u00eas nos andares mais baixos. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"backstage-photo\" id=\"chunk-68bq2\">\n<p> Julia Andara Pires, de 6 anos, lembra que a \u00e1gua invadiu o condom\u00ednio onde mora pelo bueiro, e que a fam\u00edlia teve que sair \u00e0s pressas durante a enchente de 2024 \u2014 Foto: Anna Ortega\/g1 <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-ft8sh\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Como era imposs\u00edvel entrar em casa, Julia foi levada para a casa dos av\u00f3s, em Tramanda\u00ed, enquanto os pais tentavam salvar as coisas em Porto Alegre. \u201cEla ficou um tempo longe da gente, e 3 meses sem escola. Foi dif\u00edcil, mesmo ligando todo dia, ela sentiu muito\u201d, conta N\u00e1tali Andara de Andrade, m\u00e3e da menina. N\u00e1tali lembra que antes era bom dormir com barulho de chuva. \u201cAgora, se chove, ningu\u00e9m dorme direito.\u201d <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-37h20\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> As crian\u00e7as ainda se lembram da constante troca de casa durante a trag\u00e9dia. Joaquim Rosa, de 6 anos, diz que teve de se mudar duas vezes. Primeiro, sua casa foi alagada, depois a &#8220;nova casa&#8221; para onde se mudaram tamb\u00e9m foi alagada, e por fim, ele e sua m\u00e3e foram para outro lugar. \u201cEu fico triste porque perdi meus gokus [bonecos] e meus Hot Wheels [carrinhos]\u201d, conta ele sobre os brinquedos preferidos. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"backstage-photo\" id=\"chunk-bdqg\">\n<p> Joaquim, de 6 anos, lamenta a perda dos brinquedos \u2014 Foto: Anna Ortega\/g1 <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-7ui33\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> A moradora de Eldorado do Sul Caroline Trapp lembra da dificuldade de blindar o filho Rafael, ent\u00e3o com 4 anos, do ambiente de ang\u00fastia que tomou conta de todos durante a enchente. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"raw\" data-block-weight=\"57\" id=\"chunk-76l83\">\n<blockquote><p>&#8220;Eu chorava de desespero. Vi animais morrendo afogados na minha frente, minha loja de ferragens enchendo de \u00e1gua, era noite e n\u00e3o tinha luz. Minha m\u00e3e cadeirante, a gente n\u00e3o sabia como sair de casa. Era um cen\u00e1rio de p\u00e2nico mesmo. E o Rafael ficou muito agitado, ficava andando de um lado pro outro, tremendo&#8221;, lembra Caroline. <\/p><\/blockquote><\/div>\n<div data-block-type=\"backstage-photo\" id=\"chunk-5jtkl\">\n<p> Moradora de Eldorado do Sul, Caroline Trapp teve a casa devastada pelas enchentes de maio de 2024 \u2014 Foto: Acervo pessoal\/Caroline Trapp <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-69mfc\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Caroline \u00e9 uma das lideran\u00e7as de um movimento na cidade chamado SOS Enchentes que faz press\u00e3o por obras p\u00fablicas para impedir novas cat\u00e1strofes. \u201cEm junho agora, tivemos outra enchente, n\u00e3o foi t\u00e3o grande como a do ano passado, mas a gente n\u00e3o aguenta mais, e n\u00e3o queremos ver nossos filhos passarem por isso de novo.\u201d <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"backstage-photo\" id=\"chunk-8a9lm\">\n<p> Caroline Trapp e seu filho Rafael, que viveram momentos desesperadores durante as enchentes de maio de 2024 \u2014 Foto: Acervo pessoal\/Caroline Trapp <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-cdpc4\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> O terapeuta social e pedagogo Reinaldo Nascimento, cofundador da Associa\u00e7\u00e3o da Pedagogia de Emerg\u00eancia no Brasil, explica que, logo depois da trag\u00e9dia, <span>\u00e9 muito normal as crian\u00e7as ficarem assustadas, com o cora\u00e7\u00e3o acelerado, a boca seca, com dificuldades para dormir e entender o que est\u00e1 acontecendo. <\/span> <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"raw\" data-block-weight=\"49\" id=\"chunk-tert\">\n<blockquote><p>\u201cA gente chama de fase aguda, que dura de um, dois, no m\u00e1ximo, tr\u00eas dias. Quando essa crian\u00e7a tem apoio de um adulto, normalmente, essas rea\u00e7\u00f5es da fase aguda desaparecem. Se elas n\u00e3o desaparecem, come\u00e7a uma fase que n\u00f3s chamamos de rea\u00e7\u00f5es causadas por esse estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico\u201d, diz Reinaldo. <\/p><\/blockquote><\/div>\n<div id=\"chunk-e9gsq\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Nos dias seguintes \u00e0s enchentes, participantes da Pedagogia da Emerg\u00eancia conseguiram montar 19 espa\u00e7os de apoio \u00e0s v\u00edtimas das enchentes em abrigos. Mais de 2 mil pessoas foram beneficiadas, sendo 754 crian\u00e7as e adolescentes. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-3mnhn\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> \u201cO trabalho \u00e9 auxiliar essas crian\u00e7as e adolescentes a lidar com esse evento atrav\u00e9s da arte, pintar, desenhar, cantar, brincar, passear, esculpir, trabalhos manuais, aula de m\u00fasica, aula de pedagogia, jogos cooperativos&#8230;\u201d Tudo como forma de elaborar uma situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil, com tantas perdas, que representam um luto. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"raw\" data-block-weight=\"2\" id=\"chunk-25n7l\">\n<p><h2>Estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico <\/h2>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-eo2r0\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> A psic\u00f3loga Joana B\u00fccker, professora da Universidade do Vale do Taquari (Univates), explica que pesquisadores est\u00e3o investigando o estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico em crian\u00e7as, porque o Rio Grande do Sul tem enfrentado uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es de estresse de forma cont\u00ednua. Em 2023, por exemplo, foram duas grandes enchentes na regi\u00e3o do Vale do Taquari e, depois, em maio, a enchente hist\u00f3rica que atingiu boa parte do estado \u2013 e tudo isso aconteceu pouco tempo depois da pandemia. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"raw\" data-block-weight=\"36\" id=\"chunk-33k0i\">\n<blockquote><p>\u201cN\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as crian\u00e7as que est\u00e3o com medo de chuva aqui, \u00e9 algo geral. Chove e j\u00e1 fica todo mundo muito apavorado. E a gente percebe o aumento de sintomas psiqui\u00e1tricos, como ansiedade e depress\u00e3o.\u201d <\/p><\/blockquote><\/div>\n<div data-block-type=\"backstage-photo\" id=\"chunk-d29k5\">\n<p> Parquinho destru\u00eddo pelas chuvas na EMEI Miguel Granato Velasquez, em Porto Alegre. Os brinquedos ainda n\u00e3o foram trocados porque h\u00e1 outro parquinho funcionando na unidade, e ela passar\u00e1 por uma reforma maior \u2014 Foto: Anna Ortega\/g1 <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-cs0q2\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Joana diz que, al\u00e9m do trauma pela trag\u00e9dia, a perda de casa e os deslocamentos for\u00e7ados t\u00eam impactos importantes para as crian\u00e7as. \u201cTu perdes teu senso de identidade, teu vizinho com quem tu brincava, a pracinha, a escola que voc\u00ea ia e que era perto da tua casa&#8230; as pessoas v\u00e3o perdendo toda essa rede de apoio.\u201d <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-br45j\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> <span>Ainda n\u00e3o h\u00e1 dados brasileiros sobre impacto de trag\u00e9dias clim\u00e1ticas na sa\u00fade mental de crian\u00e7as. Mas a Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psicologia diz que at\u00e9 45% das crian\u00e7as sofrem de depress\u00e3o ap\u00f3s desastres extremos.<\/span> Passar por experi\u00eancias do tipo causa <strong>ang\u00fastia, tristeza, preocupa\u00e7\u00e3o excessiva, medo, inseguran\u00e7a e perda de apetite<\/strong>. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-c2hls\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Reinaldo Nascimento percebe, nas crian\u00e7as traumatizadas, muita tristeza, medo, dificuldade de se concentrar, sono muito agitado, com pesadelos, e at\u00e9 dores no corpo e dificuldades para respirar. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"raw\" data-block-weight=\"68\" id=\"chunk-1p2t3\">\n<blockquote><p>\u201cQuem passa por um evento traum\u00e1tico na primeira inf\u00e2ncia precisa de muita ajuda, porque ela nem consegue nomear o que est\u00e1 acontecendo. Eu tive uma experi\u00eancia no Rio Grande do Sul de uma crian\u00e7a que n\u00e3o conseguia dar descarga no vaso, porque o barulho da descarga era um gatilho para o medo do trov\u00e3o. Se a gente n\u00e3o entende isso, a gente cutuca uma ferida que est\u00e1 aberta.\u201d <\/p><\/blockquote><\/div>\n<div data-block-type=\"raw\" data-block-weight=\"3\" id=\"chunk-77g8b\">\n<p><h2>Aumento da agressividade <\/h2>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-bnkno\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Muitas fam\u00edlias notaram aumento de agressividade das crian\u00e7as depois da trag\u00e9dia. \u00c9 o caso de Carmelinda dos Santos, de 58 anos, que vive com a neta Julia Alexsandra dos Santos, de 2 anos, na Ilha das Flores. &#8220;Eu percebo que a J\u00falia ficou insegura. Ela s\u00f3 se sente segura quando est\u00e1 comigo, porque todo pavor que ela passou durante a enchente, ela estava com a m\u00e3e&#8230; Quando est\u00e1 na casa da m\u00e3e, ela chora muito, ela fica agressiva. Ela n\u00e3o come direito, n\u00e3o dorme direito.&#8221; <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"backstage-photo\" id=\"chunk-csrgs\">\n<p> Carmelinda dos Santos percebeu que a neta Julia Alexsandra dos Santos ficou mais agressiva depois das enchentes hist\u00f3ricas em Porto Alegre \u2014 Foto: Anna Ortega\/g1 <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-45ot3\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Thayn\u00e1 dos Santos Branco, de 31 anos, moradora do Sarandi, \u00e9 m\u00e3e de tr\u00eas filhos, entre 3 e 14 anos. Depois das enchentes, ela percebeu que Mateus, de 6 anos, ficou mais agressivo e irritadi\u00e7o. \u201cForam tempos bem complicados pra lidar com ele, porque ele \u00e9 muito r\u00edgido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 rotina. Ent\u00e3o, sair da rotina, \u00e9 um problema muito grande. Estamos investigando se ele tem autismo.\u201d <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-1nqga\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> A professora Shaiane Silva da Silva Kaiper, de 34 anos, conta que a filha mais nova, de 4 anos, tamb\u00e9m sofreu com a mudan\u00e7a brusca na rotina. \u201cHoje sabemos que ela tem autismo, o diagn\u00f3stico veio neste ano. Durante a enchente, tudo foi muito duro para ela, principalmente ficar longe do pai, que ficou aqui tentando salvar o que dava, enquanto a gente se abrigava em outra cidade\u201d, diz Shaiane. \u201cEla via as not\u00edcias da TV e ficava repetindo: minha casa est\u00e1 feia, m\u00e3e, est\u00e1 muito feia.\u201d <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"backstage-photo\" id=\"chunk-ftd0\">\n<p> Shaiane Silva da Silva Kaiper enfrentou dificuldades para acalmar a filha pequena durante as enchentes e tamb\u00e9m para encontrar os alimentos que ela podia comer \u2014 Foto: Anna Ortega\/g1 <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-eik95\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Uma dificuldade que Shaiane enfrentou durante a trag\u00e9dia foi encontrar alimentos seguros para a filha, que tem alergia \u00e0 prote\u00edna do leite. \u201cAl\u00e9m de tudo, ela s\u00f3 comia coisas de determinadas marcas, e a gente costumava comprar numa loja no centro de Porto Alegre, que estava debaixo d&#8217;\u00e1gua. Foi dif\u00edcil, mas, depois de uns dias, a gente teve ajuda.\u201d <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"raw\" data-block-weight=\"2\" id=\"chunk-cnmmj\">\n<p><h2>Escolas interditadas <\/h2>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"backstage-photo\" id=\"chunk-86l1m\">\n<p> A ECEI Anjo das Flores ficou semanas coberta pelas \u00e1guas durante a enchente de maio de 2024; depois que a \u00e1gua baixou, uma for\u00e7a tarefa de volunt\u00e1rios, trabalhadores da prefeitura e at\u00e9 militares conseguiu recuperar o pr\u00e9dio \u2014 Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Amanda Polato <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-d9rge\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Segundo a Defesa Civil do Rio Grande do Sul, <span>mais de 790 escolas foram afetadas de alguma forma no estado ou serviram de abrigo<\/span>. S\u00f3 em Porto Alegre, 14 escolas de educa\u00e7\u00e3o infantil, das 100 unidades diretas do munic\u00edpio, foram inundadas. E cerca de 30 escolas credenciadas \u00e0 prefeitura, das mais de 300, tamb\u00e9m ficaram debaixo d&#8217;\u00e1gua. <span>Inicialmente, 6.680 alunos ficaram fora das escolas.<\/span> Nas semanas e at\u00e9 meses seguintes, as escolas foram reabrindo ou funcionando em espa\u00e7os alternativos. Os dados s\u00e3o da Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o de Porto Alegre. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-4fk9t\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Para as crian\u00e7as pequenas, ficar sem escola e longe dos amigos e das professoras t\u00eam impactos importantes. Nas semanas seguintes ao alagamento de maio de 2024, Adriana Fontoura, de 38 anos, conta que a filha Rebeca, de 5 anos, passava perto da ECEI Anjo das Flores e pedia para voltar para l\u00e1. A fam\u00edlia estava desabrigada e chegou a ficar dois meses numa barraca, perto da escolinha, que estava debaixo d\u2019\u00e1gua. \u201cRebeca sentiu muita falta, ela ama vir aqui\u201d, diz Adriana. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"backstage-photo\" id=\"chunk-4q7rf\">\n<p> Adriana e sua filha Rebeca no parquinho da ECEI Anjo das Flores, um espa\u00e7o querido pelas crian\u00e7as \u2014 Foto: Anna Ortega\/g1 <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-cffek\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> A escola fica na Ilha das Flores, em Porto Alegre, que \u00e9 uma regi\u00e3o muito vulner\u00e1vel a enchentes, por estar pr\u00f3xima \u00e0 foz do Rio Jacu\u00ed e \u00e0 margem do Gua\u00edba. Os moradores dizem que os rios est\u00e3o assoreados, ent\u00e3o, em per\u00edodos de muita chuva, esse sistema h\u00eddrico fica sobrecarregado, aumentando o n\u00edvel da \u00e1gua. A prefeitura de Porto Alegre tem estimulado o reassentamento de fam\u00edlias que vivem ali, oferecendo compra assistida de im\u00f3veis em outras regi\u00f5es. Mas muita gente ainda permanece no bairro. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-a10d3\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> A diretora da ECEI Anjo das Flores, Laci Hirsch, diz que muitas fam\u00edlias j\u00e1 sa\u00edram e hoje h\u00e1 menos crian\u00e7as do que a capacidade do total da escola, mas ela vai permanecer por l\u00e1 para atender quem precisa. \u201cEu mesma perdi minha casa, que ficava aqui na mesma rua da escola, mas enquanto houver crian\u00e7a, vou ficar com as portas abertas.\u201d <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-8qlu8\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Muita gente ainda n\u00e3o se d\u00e1 conta da import\u00e2ncia dessa etapa da educa\u00e7\u00e3o, diz Claudia Horn, professora da Escola de Educa\u00e7\u00e3o da Univates, por isso, todo esfor\u00e7o para manter essas escolas funcionando \u00e9 importante. \u201c\u00c9 uma etapa fundamental para construir, inclusive, as no\u00e7\u00f5es do que \u00e9 uma escola. Tem pesquisas que mostram que isso impacta nos estudos seguintes, o ensino fundamental e o ensino m\u00e9dio.\u201d <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"backstage-photo\" id=\"chunk-5qkms\">\n<p> A diretora da ECEI Anjo das Flores, Laci Hirsch, teve a pr\u00f3pria casa destru\u00edda pelas cheias na Ilha das Flores e precisou se mudar do bairro, mas continua dedicada \u00e0 escola \u2014 Foto: Anna Ortega\/g1 <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"raw\" data-block-weight=\"3\" id=\"chunk-41gpq\">\n<p><h2>Evas\u00e3o de alunos <\/h2>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-22mtc\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> A cidade de Eldorado do Sul, na regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, foi uma das mais afetadas pelas cheias. E milhares de pessoas sa\u00edram de casa e nunca mais retornaram. Isso gerou preocupa\u00e7\u00f5es entre os educadores. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-cag59\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Daniela Guedes, que \u00e9 diretora da Escola Eldoradinho e presidente da associa\u00e7\u00e3o de escolas parceiras da rede municipal, diz que houve tantas mudan\u00e7as que as institui\u00e7\u00f5es discutem como melhorar a busca ativa pelas crian\u00e7as e fam\u00edlias. \u201cMuitos alunos foram para Gua\u00edba, a gente n\u00e3o sabe como est\u00e3o, se est\u00e3o matriculados.\u201d <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"raw\" data-block-weight=\"3\" id=\"chunk-7obpc\">\n<p><h2>Planejamento das escolas <\/h2>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-al7mj\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> A pesquisadora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Simone Albuquerque, conta que, at\u00e9 a enchente hist\u00f3rica, n\u00e3o existia nenhum planejamento do que fazer em situa\u00e7\u00f5es como aquelas. Os profissionais n\u00e3o sabiam para onde ir, como manter contato com as crian\u00e7as, com as fam\u00edlias, ou como retomar as aulas de forma emergencial. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-ef77k\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> \u201cEu tenho uma pesquisa que analisa os impactos da pandemia no curr\u00edculo da educa\u00e7\u00e3o infantil. E ela mostra que a experi\u00eancia da pandemia, de como fazer as coisas mesmo n\u00e3o estando junto, as escolas j\u00e1 sabiam. Isso ajudou um pouco\u201d, explica Simone. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-9bs10\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Foi o que fizeram as professoras da EMEI Miguel Granato Velasquez. \u201cPassado aquele choque inicial, a gente procurou as fam\u00edlias pelo WhatsApp, para saber se estava tudo bem. Depois, as professoras come\u00e7aram a mandar \u00e1udio e v\u00eddeos, para manter v\u00ednculos com as crian\u00e7as. A gente j\u00e1 tinha essa experi\u00eancia da pandemia\u201d, conta Jennifer Kern, vice-diretora da escola. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-d6d\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Equipes da escola tamb\u00e9m visitaram alunos que estavam em abrigos, logo nos dias iniciais da trag\u00e9dia. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-a2j9g\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> A escola fica numa das regi\u00f5es de Porto Alegre onde a \u00e1gua mais demorou para baixar. E ela tinha subido tanto que era poss\u00edvel passar por cima do terreno de barco. \u201cEra uma agonia pensar que tudo estava estragando, eram muitos anos de trabalho. Ent\u00e3o cada pecinha, cada brinquedo, cada azulejo, todos os nossos projetos&#8230; Tudo apodrecendo\u201d, lembra Jennifer. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"backstage-photo\" id=\"chunk-3nhvn\">\n<p> Jennifer Kern, vice-diretora da EMEI Miguel Granato Velasquez (\u00e0 esquerda), e Sabrina Garcez, diretora da escola (\u00e0 direita), procuraram alternativas para retomar o atendimento \u00e0s crian\u00e7as no menor tempo poss\u00edvel depois da enchente \u2014 Foto: Anna Ortega\/g1 <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-3op3n\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> Enquanto era imposs\u00edvel entrar no pr\u00e9dio principal, a equipe se mobilizou, junto com a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o, para encontrar um espa\u00e7o alternativo que pudesse receber as crian\u00e7as provisoriamente. Quando a \u00e1gua baixou, a escola conseguiu recuperar rapidamente uma casinha pequena na \u00e1rea externa, e ali funcionou um ber\u00e7\u00e1rio improvisado. As crian\u00e7as maiores eram levadas de \u00f4nibus para um pr\u00e9dio do Sesi, onde as aulas foram retomadas. A escola s\u00f3 reabriu 3 meses depois da enchente. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div id=\"chunk-8vnh\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> At\u00e9 hoje, uma placa na parede indica a altura em que a \u00e1gua chegou na EMEI, para que a trag\u00e9dia nunca seja esquecida. Nem os aprendizados dela. <\/p>\n<\/p><\/div>\n<div data-block-type=\"raw\" data-block-weight=\"78\" id=\"chunk-98kpe\">\n<blockquote><p>\u201cA escola \u00e9 muito mais do que paredes e organiza\u00e7\u00e3o f\u00edsica e institucional. A escola s\u00e3o as pessoas. S\u00e3o as pessoas que constroem esse sentido de escola. E a escola \u00e9 o que acolhe nesse momento. Se o pr\u00e9dio tiver que fechar, voc\u00ea vai ter uma rede de apoio ali. Quem \u00e9 que une as fam\u00edlias? \u00c9 a escola. A escola tem um significado tanto na pandemia como agora. E vai muito al\u00e9m da aprendizagem\u201d, diz Simone Albuquerque. <\/p><\/blockquote><\/div>\n<div id=\"chunk-fl0av\" data-track-category=\"multicontent\" data-track-action=\"multicontent\" data-track-noninteraction=\"false\" data-track-scroll=\"ultimo chunk conteudo\" data-track-value=\"view\">\n<p data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links> <em>Esta reportagem recebeu apoio do programa \u201cEarly Childhood Reporting Fellowship\u201d, do Global Center for Journalism and Trauma.<\/em> <\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rosimere Rocha da Silva, de 41 anos, conta que a filha Alana e seu outro filho, Jaisson, de 8 anos, ainda t\u00eam p\u00e2nico quando come\u00e7a a chover. 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