O casal era dono do Mercado Aguiar, na Vila Anair, em Cachoeirinha. A filha era revendedora de cosméticos mas também trabalhava com os pais.
Em entrevista à RBS TV nesta terça, o delegado Anderson Spier, responsável pela investigação, explica que o inquérito está na reta final e será concluído em cerca de 20 dias. A polícia deve pedir nas próximas semanas a prisão preventiva do homem.
“Temos uma quantidade grande de elementos, de indícios, que apontam para a prática do crime pelo suspeito. Já conseguimos realizar uma cronologia dos acontecimentos do dia 24 e do dia 25.”
Para verificar o álibi, a polícia cumpriu mandados de busca e apreensão. Foram verificados um celular, um pen drive, um HD externo e um videogame. O videogame foi apreendido para verificar se o dispositivo foi conectado à rede Wi-Fi da casa de Cristiano naquela noite. O amigo havia dito à polícia que passou a noite de 24 de janeiro na casa de Cristiano, onde também estava o filho do suspeito, e eles teriam jogado videogame até a madrugada do dia 25.
Spier destaca que o álibi de Cristiano foi descartado. Ele havia declarado que tinha jantado com um amigo na noite em que Silvana desapareceu. O suspeito alegou que eles teriam jogado videogame.
“Nós conseguimos provar que ele não esteve nos locais onde ele afirma que esteve. E além disso, ainda tem outras questões com relação a precisão de horários em que ele não conseguiu comprovar onde estava no momento”, diz o delegado.
Além disso, Cristiano estava com o celular da Silvana nos dias posteriores ao desaparecimento. Inclusive, levou o aparelho para o serviço, em Canoas.
Motivação
O crime teria sido motivado por desavenças na criação do filho entre Silvana e o ex. A mulher procurou o Conselho Tutelar para relatar que o pai não seguia suas orientações nos cuidados com o filho, que teria restrições alimentares.
“A gente tem já na investigação formalizado que a motivação ela passa ali pela questão da tensão existente entre o suspeito e a Silvana com relação à educação do filho.”
O delegado afirma que a mãe estaria planejando pedir entrar com um proceso judicial contra o pai. “Existem informações que também dão conta que ela iria procurar um advogado para tratar questões atinentes à guarda e outros elementos. Então a gente acha que isso pode ter sido o fator, o gatilho, que desencadeou a ação dele.”
Outro ponto investigado é a questão patrimonial, pois a família Aguiar tinha muitos bens. “Envolvia imóveis, casas de aluguel, apartamentos de aluguel. E a gente sabe que no caso da morte da Silvana e dos pais dela, todos esses bens, numa sucessão, posteriormente, viriam a se tornar propriedade do neto.” A polícia ainda aguarda a quebra de sigilo bancário para ver se eles possuíam aplicações ou seguros.
Novo depoimento
Cristiano deverá prestar um novo depoimento nos próximos dias. “Prestou apenas uma vez, enquanto ainda foi ouvido como testemunha em razão do registro do desaparecimento.”
Em nota, o advogado Jeverson Barcellos, que representa Cristiano, informou que mantém “efetiva colaboração com as autoridades” e que “irá se debruçar sobre a decisão e seus fundamentos, para analisar eventual combate por via de habeas corpus”. Leia abaixo a íntegra
Cães farejadores são usados em buscas a família desaparecida em Cachoeirinha — Foto: Reprodução/RBS TV
Um mês do desaparecimento da família Aguiar, em Cachoeirinha (RS)
Relembre o caso
O g1 montou a linha do tempo que detalha os principais acontecimentos da investigação. Confira:
O fim de semana dos desaparecimentos
- 24 de janeiro (sábado): Silvana é vista pela última vez. Uma publicação em seu perfil nas redes sociais dizia que ela havia sofrido um acidente em Gramado, mas que estava bem. Segundo a polícia, o acidente nunca aconteceu e o objetivo da postagem seria despistar o desaparecimento.
Imagens de uma câmera de segurança registraram uma movimentação atípica de veículos na noite de 24 de janeiro:
– 20h34: Um carro vermelho entra na residência de Silvana, e sai oito minutos depois;
– 21h28: O veículo branco de Silvana entra na garagem da casa;
– 23h30: Outro automóvel chega ao local, permanece por 12 minutos e vai embora. - 25 de janeiro (domingo):
– Alertados por vizinhos sobre a postagem, os pais de Silvana, Isail e Dalmira Aguiar, saem para procurar a filha. O casal de idosos tenta registrar o desaparecimento na delegacia distrital, mas a unidade estava fechada;
– Segundo a Polícia Civil, após saírem da delegacia, os idosos seguiram para a residência do ex-genro, Cristiano. Em depoimento prestado inicialmente como testemunha, o policial afirmou que o casal teria pedido ajuda para procurar Silvana, já que ele é policial militar. Ele teria dito que estava preparando o almoço e que auxiliaria mais tarde;
– Ainda conforme a investigação, após a visita, os idosos teriam retornado para casa e, horas depois, teriam sido vistos por vizinhos entrando em um carro não identificado, de cor desconhecida. Desde então, não foram mais vistos.
- 27 e 28 de janeiro: As ocorrências de desaparecimento são registradas formalmente. O ex-marido, Cristiano Domingues Francisco, comunica o sumiço de Silvana, e uma sobrinha, informa à polícia que os idosos também não foram mais vistos;
- 28 de janeiro: Cristiano comparece ao Conselho Tutelar para pedir que o filho fique sob sua guarda durante as investigações;
- 1º de fevereiro: Cristiano envia uma foto de dentro da casa dos sogros para uma conhecida, mostrando o veículo do casal;
- 3 de fevereiro: A polícia ouve seis pessoas, incluindo o ex-marido e sua atual companheira. Um projétil de arma de fogo é encontrado no pátio da casa dos idosos;
- 4 de fevereiro: A Polícia Civil confirma que trata o caso como crime, descartando sequestro por falta de pedido de resgate.
Em áudio, PM suspeito de matar família no RS pergunta sobre investigação
- 25 de fevereiro: Silvana é considerada a 20ª vítima de feminicídio no RS em 2026.
- 26 e 27 de fevereiro: Polícia Civil realiza buscas pelos corpos em áreas de matas e rios próximos a Cachoerinha.
- 9 de março: Prisão de PM suspeito do desaparecimento é prorrogada por 30 dias.
- 13 de março: Bombeiros realizam mais trabalhos de busca em áreas rurais da Região Metropolitana de Porto Alegre. Os agentes usam cães farejadores.
- 24 de março: O desaparecimento da família Aguiar completa dois meses.
Nota da defesa do PM preso
“A defesa de Cristiano diante da prorrogação da prisão temporária por mais 30 dias, vai acompanhar o andamento das investigações, estando por seus familiares à disposição de manter a efetiva colaboração com as autoridades.
Por fim, irá se debruçar sobre a decisão e seus fundamentos, para analisar eventual combate por via de habeas corpus.”
Silvana Germann de Aguiar, Dalmira Germann de Aguiar e Isail Vieira de Aguiar — Foto: Imagens cedidas/Polícia Civil
Infográfico: pais e filha desaparecem em Cachoeirinha — Foto: Arte/g1