Biblioteca em Porto Alegre mantém 5 mil páginas com registro de negros escravizados que entraram no RS

Biblioteca em Porto Alegre mantém 5 mil páginas com registro de negros escravizados que entraram no RS

Além dos oito exemplares que mostram os registros de compra e venda de pessoas negras no RS, o local, que agora funciona na Cidade Baixa, abriga mais de 1,3 mil obras, incluindo livros raros e documentos históricos. A biblioteca está instalada na Associação Odabá, onde também há espaço de co-working para afro-empreendedores.

A mantenedora do espaço, Clélia Paim, de 69 anos, explica que os registros de comércio de escravizados são elemento importante para o resgate da história das pessoas negras no RS.

“Ainda há muitas pessoas que buscam requerer terras, indenizações e outros direitos, e isso é muito demorado. Porque os escravizados entravam no Brasil com nomes diferentes de sua origem, eram registrados com o sobrenome de seu comprador”, explica Clélia.

Apesar de detalharem apenas características que Clélia descreve como “técnicas” ou “comerciais” dos negros trazidos ao estado como produtos (altura, idade, características físicas e poucas informações de parentesco), a publicação pode ajudar na busca por direitos.

“Ainda que os dados nestes documentos sejam muito resumidos, ajudam nessa busca por nossos ancestrais e, com isso, na busca por direitos.”

Clélia Paim, 69 anos, ajudou a reabrir a Biblioteca do Negro em Porto Alegre — Foto: Mateus Bruxel/Agência RBS

Pesquisa em todo o RS

A pesquisa que resultou nos livros foi feita por iniciativa do Ministério Público do RS (MPRS), que contratou historiadores de todo o estado e buscou por registros em todos os tabelionatos do RS.

“É um peso muito grande, porque é a história real. Ali, nos conscientizamos de que éramos realmente mercadoria. Além do nosso primeiro nome, tem só as nossas características ‘técnicas’: como eram nossos dentes, nossos braços, nossos músculos, o valor da venda, o valor da compra e pronto”, diz.

A Biblioteca do Negro fica aberta ao público diariaemente na Casa Odabá (Rua João Alfredo, 782). A consulta aos livros também é livre, mas exige agendamento prévio.

A biblioteca recebe o nome de Yvanilda de Oliveira Belegante, professora de geografia que durante mais de 30 anos esteve à frente do espaço, mas que precisou se afastar por questões de saúde.

Clélia Paim, 69 anos, e Jair Ângelos, 60 anos, mantenedores da Biblioteca do Negro, em Porto Alegre — Foto: Mateus Bruxel/Agência RBS

Atuação do Ministério Público no resgate documental

No dia 14 de abril deste ano, dois irmãos investigados pelo Ministério Público, que atuam no comércio de livros raros, com vendas e divulgação dos materiais, publicaram nas redes dois documentos históricos – resgatados de um incêndio em um cartório, segundo eles – que mostravam parte do regime escravocrata brasileiro da antiga província de Rio Grande.

Diante da possibilidade de que eles poderiam vender os registros que tinham origem pública, o MP obteve na Justiça dois mandados de busca e apreensão em residências dos investigados. Conforme investigação, um dos irmãos estava oferecendo os documentos por R$ 10 mil.

Os registros incluem documentos da Junta de Classificação e de Emancipação de Escravos, matrícula de pessoas escravizadas, registros de cemitério e da cadeia de Rio Grande, com informações sobre entradas e saídas de pessoas escravizadas que fugiram.

“Esses documentos, que registram o sofrimento da população negra e o funcionamento deste sistema tão violento e que trouxe tantos traumas, ajudam na reconstituição dessa história, dessa ferida ainda não cicatrizada, e como lidar com essa questão atualmente”, afirmou o historiador Gabriel Gaziero.

Documentos foram recuperados por ação do MP — Foto: Divulgação/MPRS

Documentos foram recuperados por ação do MP — Foto: Divulgação/MPRS

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