O pai da criança teria administrado medicamentos sedativos ao menino, concluiu a investigação, liderada pelo delegado, Maurício Barison. A polícia explica que os maus tratos estão caracterizados como “meio de abuso de meios de disciplina ou tratamento”.
“Nossa conclusão é de que ele ministraria esses medicamentos para sedar o menino, para provavelmente não ter tanto trabalho de cuidar”, disse o delegado ao g1.
A defesa afirma que deve emitir uma nota assim que tiver acesso ao relatório final da autoridade policial.
Lorscheitter está preso por suspeita de matar a mãe da criança, a enfermeira Patricia Rosa dos Santos, de 41 anos. O crime aconteceu em 22 de outubro. (Relembre o caso abaixo)
As investigações relacionadas ao menino começaram em 2024, após um relato obtido pela Polícia de crimes sexuais. A criança passou por exames físicos e psicológicos no Centro de Referência em Atendimento Infantojuvenil (CRAI), mas os resultados não indicaram sinais de violência sexual.
No entanto, durante a apuração, a investigação obteve um vídeo gravado na escola da vítima, no qual o menino aparece com dificuldades para andar, fala arrastada e olhos semicerrados, como se estivesse sob efeito de sedativos. Após a prisão do pai pelo assassinato da esposa, foram encontrados frascos vazios de medicamentos controlados na residência do casal.
Novos exames toxicológicos foram solicitados, mas o tempo decorrido impossibilitou a detecção da substância no organismo da criança. Diante disso, a polícia colheu depoimentos de testemunhas, analisou imagens de câmeras de segurança e registros médicos anteriores.
A investigação da Polícia Civil concluiu que o pai administrava Clonazepam (medicação sedativa) ao filho, com a intenção de modificar o comportamento da criança, sem o objetivo explícito de causar dano.
Relembre o caso
Patricia Rosa dos Santos morreu, em Canoas, após aplicação de medicamentos — Foto: Arquivo pessoal
A Polícia Civil afirma que a enfermeira foi morta em 22 de outubro. Baptista, marido da vítima, apresentou à família um atestado de outro médico do Samu que estaria indicando como causa da morte um infarto agudo no miocárdio. Os familiares desconfiaram e acionaram a polícia.
Após perícia em um sorvete que Baptista relatou que Patricia tinha comido, foi encontrado o remédio Zolpidem no pote. A investigação indica que o medicamento foi usado para fazer a vítima dormir. Remédios controlados, como Midazolam e Succitrat, também estavam no carro do suspeito, junto com insumos médicos.
O Instituto-Geral de Perícias (IGP) identificou marcas de injeção no corpo da vítima. A polícia acredita que o médico usou essas áreas para administrar as medicações.
Em outra ocasião, de acordo com a investigação, o médico já teria dopado a esposa para tentar forçar um aborto, mas não conseguiu. Familiares afirmam que não havia histórico de violência além desse caso.
O processo na Justiça
Em dezembro de 2024, a Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público (MP) e tornou réu o médico. André Lorscheitter Baptista responderá pelos crimes de feminicídio e fraude processual.
O caso será julgado com as causas de aumento de pena: vítima ser mãe de uma criança (filha do réu); menosprezo ou discriminação à condição de mulher; emprego de meio insidioso e veneno e mediante recurso que dificultou a defesa da ofendida.
O juiz Diogo de Souza Mazzucatto Esteves, da 1ª Vara Criminal da Comarca de Canoas, arquivou o inquérito policial contra o médico em relação ao crime de furto e em relação aos outros três indiciados, servidores do Samu de Canoas, apontados como “possíveis autores do delito de alteração de local dos fatos”.
A denúncia é de autoria do promotor de Justiça Rafael Russomanno Gonçalves.
“Há evidências de que o indiciado ministrou medicamento sedativo na companheira e, depois, com ela já desacordada, os demais fármacos identificados em laudo pericial, que lhe causaram a morte por asfixia medicamentosa”, defende o promotor.
A Polícia Civil havia indiciado o médico por quatro crimes: feminicídio qualificado (por emprego de veneno e meio que impossibilitou a defesa da vítima); furto qualificado (de medicamento levado do estoque do Samu de Porto Alegre); falsidade ideológica (por omitir ou fazer declaração falsa do endereço de uma arma registrada); e adulteração de local de crime (por movimentar e retirar o corpo da vítima do local, além de “maquiar”, segundo a polícia, a cena do crime).
A denúncia do MPRS ainda aponta que o crime foi cometido com o uso de medicamentos potencialmente letais, com emprego de meio insidioso, por meio dos fármacos. Além disso, o acusado teria dificultado a defesa da vítima ao usar de dissimulação.
Mantida prisão de médico suspeito de matar a mulher em Canoas
Impedido de exercer profissão
Conforme o Cremers, a interdição cautelar é um procedimento administrativo que suspende o exercício da Medicina total ou parcialmente.
Médico acusado de matar esposa com medicamento é impedido de exercer profissão — Foto: Reprodução