Em Canoas, no Hospital Nossa Senhora das Graças, está internada há três meses uma idosa de 66 anos com lesão no fêmur por causa de um câncer. A paciente passa o tempo todo na cama, com a perna erguida, para suportar a dor. O filho, o mecânico Edson Benguá, relata a peregrinação por hospitais e a angústia diante da demora:
“Ela entrou no hospital com dor na perna, caminhando, e hoje está completamente debilitada. Há quatro meses, se tivesse feito a cirurgia, teria uma recuperação plena, com certeza”.
Antes de chegar a Canoas, Carmem já havia passado pelos hospitais São Camilo, em Esteio, e Centenário, em São Leopoldo. A família recorreu à Justiça em maio, conseguindo uma liminar para garantir atendimento especializado. Mas, segundo Edson, as transferências determinadas judicialmente são enviadas a hospitais sem condições de realizar o tratamento. A reportagem aguarda uma posição do Tribunal de Justiça.
Saúde piora com a espera
A situação se repete em outras cidades. O maior volume está na chamada Região 10, que inclui a Capital e cinco municípios vizinhos: 293 pacientes estão cadastrados no sistema Gerenciamento de Internações (Gerint) da Secretaria Estadual da Saúde, que regula as internações.
Em Gravataí, quem luta contra o câncer é a irmã de Lucas Lape, de 39 anos. O quadro dela se agravou nos últimos meses.
“Quando ela entrou, só tinha um braço imobilizado. Agora, já surgiram tumores visíveis e o inchaço no rosto é muito aparente. A piora foi drástica”, contou.
No Litoral Norte, a demora também se transforma em sofrimento. Em Tramandaí, a autônoma Ângela da Rosa Mâncio acompanha o tio de 78 anos, internado há dois meses após uma síndrome que causa paralisia parcial.
“É uma angústia total, porque simplesmente ninguém faz nada. Ele já espera há 62 dias e não tem tratamento aqui. Só em outro hospital ele poderia ser atendido”, diz.
Apesar de uma liminar obtida na Defensoria Pública, a transferência não ocorreu. Na semana passada, o hospital emitiu alta para o paciente, alegando impossibilidade de transferência via Gerint e discreta melhora, sugerindo tratamento por fisioterapia. A sobrinha contesta.
“O caos total, nenhum respeito pela vida humana. O meu tio não para em pé e dizem que ele melhorou, mas eu não vejo onde”, reclama.
Procurado, o hospital não se manifestou.
Ainda em Tramandaí, técnica em enfermagem Francine Semprebon aguardou quase dois meses pela transferência do filho recém-nascido. O bebê precisava de um exame que não é ealizado no hospital local.
“Eles alegavam falta de leitos devido à bronquiolite, mas era um caso grave e urgente”, disse a mãe.
A criança foi transferida para Porto Alegre na noite de quarta-feira (20).
O motivo da demora
A prefeitura de Porto Alegre, responsável por disponibilizar as vagas, justifica que a demora decorre da alta taxa de ocupação e da carência de serviços especializados no interior do estado.
“Essa demora acontece por vários motivos. Um deles é a ocupação dos leitos de Porto Alegre, que se mantém alta. Muitos pacientes vêm de forma espontânea às portas de urgência da Capital, mesmo sem referência aqui”, informou a Secretaria Municipal da Saúde.
Procurado, o ministério da Saúde não se manifestou. Já a secretaria estadual da Saúde, responsável pelo sistema de regulação Gerint, disse, em nota, que o acordo firmado com o Ministério Público para aplicar 12% das receitas em saúde vai significar mais serviços e entregas à população (leia, abaixo, a nota na íntegra).
Nota da Secretaria Estadual da Saúde
“O Governo do Estado do Rio Grande do Sul está comprometido com a qualificação do atendimento à população e com a sustentabilidade da rede hospitalar e da atenção primária. Nesse sentido, dentro da sua estratégia de atuação, firmou acordo com o Ministério Público do RS para atualizar os critérios de cálculo da receita que deve ser aplicada saúde, superando os 12% estabelecidos por lei. Isso significa mais serviços e entregas à população.
O acordo irá garantir que, a partir de pleitos embasados em critérios técnicos e epidemiológicos, os recursos sejam investidos, preferencialmente, em redução de filas para consultas com especialistas, exames e procedimentos cirúrgicos em todo o Estado. Além disso, o acréscimo no investimento irá garantir o aumento da capacidade de atendimento nas urgências e emergências de centros de saúde e hospitais em diversos municípios do Estado.
Outros dois marcos importantes dessa gestão são a quitação das dívidas históricas com os hospitais, o que trouxe mais previsibilidade e confiança para os prestadores de serviço, e o programa Avançar Mais na Saúde, que já investiu R$ 1,16 bilhão em melhorias na rede hospitalar e na assistência primária.
O Rio Grande do Sul foi protagonista nacional por ter sido o primeiro Estado a aderir aos programas federais de redução de filas, reforçando seu papel de liderança no enfrentamento dos principais desafios da saúde pública. O Estado também vai fortalecer a rede de saúde com o Programa SUS Gaúcho, que se baseia em diretrizes como linha de cuidado integral, eficiência hospitalar e remuneração estratégica.
Nos últimos quatro anos, o Programa Assistir promoveu uma reestruturação nos critérios de financiamento hospitalar, dobrando o número de hospitais incentivados, o que resultou em entregas importantes na saúde. Houve a ampliação de serviços, como os ambulatórios de especialidades, que passaram de 101, em 2021, para 443, em 2025 (um aumento de 342%), bem como da remuneração para especialidades que nunca haviam sido incentivadas antes, como a cirurgia bariátrica, os exames de oncologia, o processo transexualizador, entre outros“.