Disputa Brasil x Uruguai: como é a vida no povoado brasileiro contestado por país vizinho

O povoado faz divisa com uma área conhecida como Rincón de Artigas, na localidade de Masoller, no departamento de Rivera, no Uruguai.

Separados por uma fronteira seca, os dois países compartilham a região disputada, que abriga cerca de 517 moradores. É comum encontrar pessoas que vivem no lado brasileiro, mas trabalham no lado uruguaio — são os chamados “doble chapa”, por terem documentação nos dois países.

“Morar aqui é uma maravilha, tem pouco movimento”, conta Gabriel Henrique Camargo, que tem dupla nacionalidade — brasileira e uruguaia.

Moradores escolhem em qual país estudar

No território contestado, os moradores podem escolher em qual país estudar. No lado brasileiro, a Escola General Bento Gonçalves atende 16 alunos com apenas uma professora responsável por todas as séries.

Já no lado uruguaio, a Escola Rural Número 79 tem cerca de 50 estudantes, com ensino em tempo integral. Além de ter mais professores, algumas aulas específicas contam com reforço extra. O inglês é oferecido com uma professora em tempo real, pela internet.

Uma das professoras da escola uruguaia também vive a realidade singular da região. Casada com um brasileiro e morando no lado brasileiro da vila, atravessa diariamente a fronteira seca para dar aulas.

“Minha casa está do lado do Brasil, meu esposo é ‘doble chapa’ e convivemos com isso”, conta Gisela Dutra.

Mesmo com ensino técnico disponível, quem deseja cursar o ensino superior precisa deixar o povoado. É o caso de Santiago Santos, que está finalizando um curso técnico pela Universidade do Trabalho do Uruguai (UTU). “Eu penso em ir embora para fazer minha vida, o meu caminho. Quero sair daqui”, afirma.

Tomaz Albornoz, área em Santana do Livramento reivindicada pelo Uruguai — Foto: Reprodução/RBS TV

Usina eólica

A instalação de uma usina eólica na região reacendeu a disputa territorial entre os dois países, mas também trouxe melhorias para o lado brasileiro. Onde antes havia postes de madeira, hoje há estruturas de concreto e novos transformadores de energia, garantindo maior estabilidade no fornecimento. Antes, era comum que a comunidade ficasse sem energia elétrica toda semana, relatam os moradores.

Como funcionam saúde, segurança e comércio

A maioria dos serviços públicos do povoado está no lado uruguaio, como o posto policial e a policlínica de Masoller — onde tanto uruguaios quanto brasileiros recebem atendimento.

“A gente oferece o primeiro atendimento. Se é uma consulta, ligamos para o médico ou levamos para a emergência”, explica a enfermeira Carla Martins.

Se o paciente for brasileiro, é encaminhado à Santa Casa de Sant’Ana do Livramento. Se for uruguaio, ao Hospital de Rivera.

Com a desvalorização do real frente ao peso uruguaio, é mais vantajoso para os uruguaios consumirem no lado brasileiro. Na Vila Thomaz Albornoz, há um comércio típico de interior, que vende desde produtos de mercado até itens de ferragens.

Tranquilidade

O casal Wilson Borba e Fabiana Marques veio de Montevidéu e decidiu morar na vila por considerá-la mais tranquila para criar os filhos. Eles sustentam a família vendendo lanches.

“Além de mais tranquilo, é mais barato para criar os filhos também. Na capital é muito complicado, por causa da segurança e do custo de vida”, diz Wilson.

“Não se compara com nenhum outro lugar. Masoller é um mundo à parte — um pequeno povoado escondido, mas em termos de segurança, é único. Mais tranquilo do que qualquer outro lugar”, complementa Fabiana.

Mapa mostra a área contestada pelo Uruguai na fronteira com o Brasil — Foto: Gui Sousa

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