“O estudo mostra que, mesmo em pouco tempo e com dose considerada baixa, o cigarro eletrônico não é inofensivo”, aponta a fisioterapeuta Luana Carla Zambon.
Os resultados, no entanto, são preliminares, obtidos em estudo com animais e ainda não publicados em revista científica nem revisados por pares.
O trabalho integra projetos de conclusão de curso e também da pós-graduação em Atenção Integral à Saúde da instituição.
Pesquisa sobre uso de cigarro eletrônico realizada com ratos de laboratório — Foto: Reprodução/ RBS TV
A pesquisa foi realizada com ratos de laboratório, que foram submetidos ao contato com o vapor duas vezes ao dia, durante 30 dias. A análise buscou compreender como a inalação da substância pode afetar o organismo.
Ao todo, foram utilizados 30 animais jovens, sendo 15 no grupo de controle e 15 expostos ao vapor. O estudo foi previamente aprovado por uma comissão de ética para uso de animais, etapa obrigatória para a realização de experimentos desse tipo.
Para a professora e coordenadora do estudo, Fernanda Dal’Maso Camera, os resultados chamaram atenção:
“Encontramos várias alterações no grupo que foi exposto ao cigarro eletrônico. Alterações importantes que nos preocupam porque esse estudo foi feito de forma inédita, o primeiro realizado com animais jovens e já percebemos grandes alterações em diferentes órgãos”, afirma
Após o período de exposição, os animais passaram por eutanásia para análise detalhada de estruturas como coração, aorta, rins, próstata, bexiga e cérebro.
Os pesquisadores realizaram exames histológicos, bioquímicos e avaliação da função cardíaca. Entre os achados, estão sinais de estresse oxidativo, presença de marcadores inflamatórios e alterações na estrutura do músculo cardíaco, além de redução da função do coração.
Também foram observadas mudanças nos rins.
“A gente pesquisou e viu que teve alterações histológicas e inflamatórias nos glomérolos renais, a gente conseguiu evidenciar várias alterações e isso compromete a função do rim”, explica Neiva de Oliveira Prestes, mestre em Atenção Integral à Saúde.
Na análise da aorta, houve redução do calibre do vaso sanguíneo. Segundo o acadêmico de Medicina Diandro Amaral, isso pode ter consequências futuras.
“A vasoconstrição significa que o órgão reduziu seu calibre e isso vai ter impacto futuro na pressão arterial. Também pode ter envolvimento com desenvolvimento de doença aterosclerótica, infarto agudo do miocárdio”, explica.
Funcionamento de órgãos
Cigarro eletrônico — Foto: Reprodução/ RBS TV
Os resultados reforçam a preocupação com os efeitos do cigarro eletrônico no organismo. O estudo indica que o uso pode prejudicar o funcionamento de órgãos e acelerar processos de envelhecimento.
Outro ponto de atenção é a presença de nicotina nos dispositivos, muitas vezes em concentrações elevadas, o que aumenta o potencial de dependência. Dados do IBGE mostram que 29,6% dos estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos já experimentaram o produto.
“Eu fazia academia e, uma vez treinando, eu senti bastante falta de ar. Até mandando áudios mais longos eu percebia que faltava o ar e eu tinha que parar para respirar pra mandar um simples áudio de um minuto. Nessa época, eu percebi que tinha algo errado e decidi parar”, conta Júlio César Alba Melle, de 22 anos.
Júlio começou o uso na adolescência e manteve o hábito por quatro anos, até perceber impactos na saúde.
A interrupção, no entanto, não foi simples.
“Foi uma transição difícil porque uns dos métodos que usei para parar foi justamente o afastamento desse grupo de amigos. Tive que me afastar bastante do pessoal, deixar de ir em alguns locais que tinha gente fumando e eu sempre acabava fumando junto”, revela.
Resultados
A equipe agora trabalha na publicação dos resultados e pretende dar continuidade às investigações. Segundo a coordenação, o artigo científico está em fase de redação e deve ser submetido a uma revista internacional, ainda não definida, possivelmente até agosto.
“Esses dados são inéditos, é um estudo que não tem nenhum outro como feito, da forma que foi feito. E o próximo passo é continuar as pesquisas para que a gente consiga trabalhar com protocolos um pouco mais intensos”, afirma a coordenadora Fernanda.