Cães e policiais funcionam como um só agente — e por isso são chamados de binômios. O treinamento é feito pelos bombeiros e a atuação nas buscas é solicitada pela polícia. Os animais são treinados desde os 45 dias de vida para diferentes finalidades em diferentes locais.
Os binômios vão até o local indicado pela polícia e atuam em uma área delimitada buscando por algum vestígio. Os cães costumam trabalhar em ternos de até uma hora e depois descansam. Neste caso, são usados dois cães a cada chamado. Até o momento, os corpos não foram encontrados.
“Os cães têm faro e agilidade para percorrer um terreno extenso em um tempo muito menor do que um ser humano faria. O binômio funciona como uma engrenagem que se completa: homem-cão. Para nós, é uma ferramenta indispensável. Não consigo mais ver uma atividade de busca e salvamento sem a presença do cão”, afirma o primeiro-tenente Rafael Vieira, porta-voz do Corpo de Bombeiros no RS.
🐕🦺 Os cães possuem capacidade olfativa quase 50 vezes maior que a dos seres humanos. O nariz do ser humano conta com cerca de 5 milhões de células olfativas, enquanto os cachorros possuem cerca de 200 milhões. Graças a esse sentido apurado, os cães conseguem detectar e diferenciar muito mais cheiros.
“Durante as enchentes de 2023 e 2024, conseguimos ver como é importante a presença do cão nas atividades dos bombeiros e da política”, completa.
Cada animal é habilitado para uma finalidade. Cães de esquadrões antibomba, por exemplo, são treinados para serem extremamente cautelosos a fim de evitar a ativação de artefatos explosivos. Já aqueles que buscam pessoas desaparecidas há quase dois meses são treinados para buscar diferentes odores.
“Temos convênios com hospitais e os cães são treinados com segmentos de pessoas que faleceram e que são autorizados pelo doador. Então eles estão habilitados para trabalhar com restos humanos. O corpo que morre solta odores diferentes ao longo do tempo, então temos que treinar eles com corpos de uma semana, duas semanas, um mês etc. Ele busca realmente o cheiro de uma estrutura humana que morreu”, explica o primeiro-tenente Vieira.
Os binômios são inseparáveis. O policial condutor fica com o animal o tempo inteiro durante o serviço no quartel e depois o leva junto para casa em períodos de folga. Mas o trabalho também exige um nível de sigilo e ambos só conhecem o local em que vão realizar as buscas no momento da ação.
Polícia e bombeiros fazem buscas com cães farejadores a família desaparecida no RS
Autoridades concentram buscas em área rural
Na mesma região também se localiza um sítio pertencente a um familiar do principal suspeito do crime, o policial militar Cristiano Domingues Francisco.
A polícia apreendeu pelo menos um telefone celular e um notebook. Além disso, dois veículos foram apreendidos para perícia. Os bens são de familiares do principal suspeito do crime.
“Nenhuma pessoa ficaria mais de 40 dias fora da sua residência sem fazer movimentações financeiras para subsistir. Não condiz com a realidade”, afirma o delegado Anderson Spier.
A principal linha de investigação é de que se trata de feminicídio (contra Silvana), duplo homicídio (pais dela) e ocultação dos cadáveres.
Em nota, o advogado Jeverson Barcellos, que representa Cristiano, informou que mantém “efetiva colaboração com as autoridades” e que “irá se debruçar sobre a decisão e seus fundamentos, para analisar eventual combate por via de habeas corpus”. Leia abaixo a íntegra
Cães farejadores são usados em buscas a família desaparecida em Cachoeirinha — Foto: Reprodução/RBS TV
Eletrônicos apreendidos
Na residência, os policiais apreenderam um celular, um pen drive, um HD externo e um videogame. Conforme a polícia, o telefone foi apreendido para que seja checada a geolocalização, mensagens de texto que tenham sido trocadas com o suspeito e outros dados.
Já o videogame foi apreendido para verificar se o dispositivo foi conectado à rede Wi-Fi da casa de Cristiano naquela noite. O amigo disse à polícia que passou a noite de 24 de janeiro na casa de Cristiano, onde também estava o filho do suspeito, e eles teriam jogado videogame até a madrugada do dia 25.
O Instituto-Geral de Perícias (IGP) afirmou que “os laudos, assim que concluídos, sempre são entregues diretamente aos cuidados da autoridade solicitante”. Não há prazo para a devolutiva.
Na ocasião, o advogado de Cristiano disse que ficou surpreso com as buscas na casa desse amigo, já que ele é uma testemunha indicada pela própria defesa.
“Bastaria solicitar a entrega do aparelho para perícia, o que seria feito com o intuito de colaborar com as investigações, da mesma forma que foi a franquia no sítio deixado pelo pai de Cristiano e demais atos colaborativos”, destaca.
Silvana Germann de Aguiar, Dalmira Germann de Aguiar e Isail Vieira de Aguiar — Foto: Imagens cedidas/Polícia Civil
Outros elementos apurados
As investigações também já levaram a polícia a um sítio da família do PM e a outra propriedade dos Aguiar, além das casas dos desaparecidos e a do próprio suspeito.
“A gente ainda precisa de algumas perícias com relação ao material genético, que estão pendentes”, acrescenta Spier.
Um mês do desaparecimento da família Aguiar, em Cachoeirinha (RS)
Relembre o caso
O g1 montou a linha do tempo que detalha os principais acontecimentos da investigação. Confira:
O fim de semana dos desaparecimentos
- 24 de janeiro (sábado): Silvana é vista pela última vez. Uma publicação em seu perfil nas redes sociais dizia que ela havia sofrido um acidente em Gramado, mas que estava bem. Segundo a polícia, o acidente nunca aconteceu e o objetivo da postagem seria despistar o desaparecimento.
Imagens de uma câmera de segurança registraram uma movimentação atípica de veículos na noite de 24 de janeiro:
– 20h34: Um carro vermelho entra na residência de Silvana, e sai oito minutos depois;
– 21h28: O veículo branco de Silvana entra na garagem da casa;
– 23h30: Outro automóvel chega ao local, permanece por 12 minutos e vai embora. - 25 de janeiro (domingo):
– Alertados por vizinhos sobre a postagem, os pais de Silvana, Isail e Dalmira Aguiar, saem para procurar a filha. O casal de idosos tenta registrar o desaparecimento na delegacia distrital, mas a unidade estava fechada;
– Segundo a Polícia Civil, após saírem da delegacia, os idosos seguiram para a residência do ex-genro, Cristiano. Em depoimento prestado inicialmente como testemunha, o policial afirmou que o casal teria pedido ajuda para procurar Silvana, já que ele é policial militar. Ele teria dito que estava preparando o almoço e que auxiliaria mais tarde;
– Ainda conforme a investigação, após a visita, os idosos teriam retornado para casa e, horas depois, teriam sido vistos por vizinhos entrando em um carro não identificado, de cor desconhecida. Desde então, não foram mais vistos.
- 27 e 28 de janeiro: As ocorrências de desaparecimento são registradas formalmente. O ex-marido, Cristiano Domingues Francisco, comunica o sumiço de Silvana, e uma sobrinha, informa à polícia que os idosos também não foram mais vistos;
- 28 de janeiro: Cristiano comparece ao Conselho Tutelar para pedir que o filho fique sob sua guarda durante as investigações;
- 1º de fevereiro: Cristiano envia uma foto de dentro da casa dos sogros para uma conhecida, mostrando o veículo do casal;
- 3 de fevereiro: A polícia ouve seis pessoas, incluindo o ex-marido e sua atual companheira. Um projétil de arma de fogo é encontrado no pátio da casa dos idosos;
- 4 de fevereiro: A Polícia Civil confirma que trata o caso como crime, descartando sequestro por falta de pedido de resgate.
Em áudio, PM suspeito de matar família no RS pergunta sobre investigação
Um mês do desaparecimento
- 24 e 25 de fevereiro: O desaparecimento da família Aguiar completa um mês.
- 25 de fevereiro: Silvana é considerada a 20ª vítima de feminicídio no RS em 2026.
- 26 e 27 de fevereiro: Polícia Civil realiza buscas pelos corpos em áreas de matas e rios próximos a Cachoerinha.
Nota da defesa do PM preso
“A defesa de Cristiano diante da prorrogação da prisão temporária por mais 30 dias, vai acompanhar o andamento das investigações, estando por seus familiares à disposição de manter a efetiva colaboração com as autoridades.
Por fim, irá se debruçar sobre a decisão e seus fundamentos, para analisar eventual combate por via de habeas corpus.”
Infográfico: pais e filha desaparecem em Cachoeirinha — Foto: Arte/g1