Punições a advogados crescem 30% no RS em 6 anos: ‘Aquele dinheiro fez falta pra mim’, diz vítima

Punições a advogados crescem 30% no RS em 6 anos: ‘Aquele dinheiro fez falta pra mim’, diz vítima

A reportagem localizou vítimas que dizem ter perdido não apenas dinheiro, mas também a confiança em quem mais acreditavam. Gravações e documentos revelam como clientes teriam sido enganados por profissionais que deveriam defendê-los.

O aposentado Pedro da Silva, de Gravataí, ganhou na Justiça uma indenização de R$ 29 mil (em valores atualizados) por danos morais contra uma loja. Ao consultar o processo, descobriu que o valor havia sido liberado, mas nunca recebeu o dinheiro. Ele acusa a própria advogada de ter sacado os recursos:

“Quantas vezes chorei? Eu precisava arrumar minha casa, aquele dinheiro fez falta pra mim”, contou Pedro, que hoje sobrevive com um salário mínimo e complementa a renda vendendo rapaduras na beira da estrada.

Aposentado Pedro da Silva, de Gravataí — Foto: Giovani Grizotti/ RBS TV

Em Vacaria, uma engenheira agrônoma afirma ter sido enganada durante um processo de separação, iniciado em 2015. Ela acusa a advogada Alessandra Rodrigues de cobrar valores indevidos, apresentar recibos falsos e até usar ameaças para justificar novas despesas.

“Como ela sabia de toda a minha história, se aproveitou dos meus momentos de vulnerabilidade”, disse a vítima, que prefere não mostrar o rosto.

A investigação da Polícia Civil aponta que, ao longo de sete anos, Alessandra teria feito 170 cobranças indevidas a seis clientes, somando R$ 670 mil. A advogada foi indiciada por estelionato, denunciada pelo Ministério Público e teve o registro suspenso pela OAB.

Em nota, a defesa de Alessandra afirmou que os fatos serão esclarecidos ao longo do processo.

Casos semelhantes ocorreram com um grupo de professores aposentados. Marlene Lobato, de Capão da Canoa, é uma das supostas vítimas. Ela afirma ter sido lesada pelo advogado Marcos Leal, de Viamão, suspeito de embolsar indenizações de precatórios.

“Eu fiz contato com ele em julho de 2024, e ele disse que estava tudo atrasado, devido à enchente. Este ano, em fevereiro, quando resolvi ir no Fórum para saber informações do precatório, fiquei sabendo que em junho de 2024 ele recebeu o dinheiro e não repassou”, reclamou.

O mesmo advogado é suspeito de se apropriar de R$ 96 mil de um idoso com Alzheimer, em Porto Alegre. O Ministério Público denunciou Leal por apropriação indébita, crime que pode resultar em até quatro anos de prisão, com agravante por ter vítima idosa.

Leal nega as acusações e diz que não foi intimado.

De acordo com o presidente da OAB/RS, Leonardo Lamachia, o crescimento nas punições é reflexo do aumento das denúncias e da agilidade nos julgamentos do Tribunal de Ética.

“Ampliamos o número de instrutores, defensores dativos e servidores para que os processos tramitem de forma célere, sempre respeitando o devido processo legal”, afirmou Lamachia.

OAB no Rio Grande do Sul — Foto: Reprodução/ RBS TV

O que diz a defesa de Alessandra Rodrigues

“A defesa da advogada denunciada informa que os fatos serão devidamente esclarecidos no decorrer da instrução processual, a qual sequer teve início. Assim, em respeito ao devido processo legal, irá se manifestar em momento oportuno, no foro adequado.”

O que diz Marcos Leal

“Recebi o inteiro teor da denúncia por meio de seu contato, o que causa surpresa, já que o processo tramita em segredo de justiça e sequer fui intimado oficialmente. Reafirmo que não reconheço as alegações e registro que o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul já decidiu em meu favor em ação cível relacionada ao mesmo autor (suposta vítima).

Confio plenamente na Justiça e estarei à disposição para exercer meu direito de defesa no momento oportuno. Ressalto, ainda, que eventual divulgação deve observar o princípio constitucional da presunção de inocência, evitando qualquer prejulgamento que possa indevidamente macular minha honra e imagem.”

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