‘Fiquei com sequelas neurológicas, e não é nada leve’, afirma sobrevivente de intoxicação por arsênio em bolo, um ano depois

‘Fiquei com sequelas neurológicas, e não é nada leve’, afirma sobrevivente de intoxicação por arsênio em bolo, um ano depois

A sobrevivente conta que, após 14 dias em uma UTI, de um total de 18 dias internada, as sequelas neurológicas são sentidas através de dormência, formigamento e fraqueza, consequências da neuropatia periférica.

“Fiquei com sequelas neurológicas, que afetam as mãos e as pernas, e não é nada leve. Agora não tem mais o que fazer”, diz.

As vítimas são as irmãs de Zeli, Maida Berenice Flores da Silva e Neuza Denize Silva dos Anjos, além de Tatiana Denize Silva dos Anjos, filha de Neuza. Zeli, que recebeu alta do hospital em janeiro, e uma criança de 10 anos foram as únicas sobreviventes.

Zeli afirma que vive com medo de ser reconhecida ao citar seu nome, por conta da exposição do caso. “Digo meu nome completo baixinho para ninguém ouvir, mas as pessoas reconhecem quando ouvem”, conta.

“Queríamos ser esquecidos”, relata.

Atualmente, Zeli mora com o neto e um filho, em outra cidade. “Mudei para ficar com eles, que é tudo que sobrou ‘do meu sangue'”, completa.

Mulher que sobreviveu a bolo envenenado com arsênio, Zeli dos Anjos dá entrevista ao Fantástico — Foto: TV Globo/Reprodução

O uso de arsênio

Agora, em dezembro de 2025, um ano após as mortes, a polícia concluiu a investigação sobre a origem do arsênio utilizado nos crimes. A apuração revelou que a compra foi feita por meio de dois sites distintos, mas ambos pertencentes à mesma empresa, registrada no Rio de Janeiro.

A Delegacia do Consumidor (Decon) identificou o responsável pela venda, mas reforçou que, apesar do risco à saúde, não há previsão penal para esse tipo de negociação.

Segundo a polícia, a comercialização do produto não é considerada ilegal atualmente, já que não existe regulamentação específica que proíba a venda para pessoas físicas.

“Tal venda não é proibida e ainda está pendente de regulamentações”, explica a delegada Milena Simioli.

Bolo envenenado com arsênio está recolhido no IGP — Foto: Divulgação/IGP

Contudo, a polícia reconhece que podem existir infrações de caráter administrativo, mas ressalta que a fiscalização dessas substâncias é responsabilidade da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que avalia se houve descumprimento das normas sanitárias e de segurança na comercialização do produto.

O g1 entrou em contato com a Anvisa, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

A delegada Milena ainda comenta que dois projetos tramitam na Câmara dos Deputados para tentar corrigir essa brecha, sendo: PL 985/2025 e PL 1381/2025. As propostas pretendem proibir a venda de compostos arsenicais a pessoas físicas e exigir justificativa técnica para uso, além de reforçar mecanismos de identificação do comprador.

🔎 O PL 1381/2025 está parado na Comissão de Indústria, Comércio e Serviços, aguardando novo relator após devolução sem parecer. Já o PL 985/2025 segue na Comissão de Saúde, com parecer favorável e substitutivo apresentado, mas ainda não votado, após apensação do PL 2771/2025.

Relembre o caso

Episódio 1: O Caso do Bolo Envenenado

De acordo com a Polícia Civil, sete pessoas da mesma família estavam reunidas em uma casa, durante um café da tarde, quando começaram a passar mal após comer fatias do bolo. Zeli dos Anjos, que preparou o doce em Arroio do Sal e levou para Torres, também foi hospitalizada. Ela era irmã de Maida e Neuza, sogra de Deise e alvo do envenenamento, segundo a Polícia Civil.

Polícia do RS conclui investigação sobre caso do bolo envenenado

A polícia descartou motivação financeira para os crimes que teriam sido cometidos por Deise. A principal hipótese é “perturbação mental”.

De acordo com o Ministério Público do RS, em casos como o de Deise Moura dos Anjos, que morreu enquanto era investigada, “o processo é extinto pela morte do agente quando a punibilidade do réu é extinta, o que acontece de acordo com o artigo 107, inciso I, do Código Penal”.

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